
domingo
...não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio...
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas não se afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos do destino, como eu, que não se afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpentes, moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando, o meu tempo que segue , pois eu não sigo... (Fernando Pessoa)
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio...
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas não se afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos do destino, como eu, que não se afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpentes, moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando, o meu tempo que segue , pois eu não sigo... (Fernando Pessoa)
sábado
"...Parece-me ás vezes ouvir o vinho falar - ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam :..
" Homem, meu bem amado, quero levar até voçê, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e esperança. Não sou ingrato , sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade, porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais que as adegas melancólicas e insensíveis.É uma tumba alegre onde cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.
Ouve-se agitar-se em mim a ressoar os poderosos refrãos dos tempos passados, os cantos de amor e de glória? Sou a alma da pátria, sou metade galante, metade militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho torna prósperos os dias, o vinho torna felizes os domingos. Os cotovelos sobre a mesa da casa e as mangas arregaçadas, assim você me glorificará orgulhosamente e ficará verdadeiramente contente.
Iluminarei os olhos de sua velha mulher, a velha companheira de suas tristezas cotidianas e de suas mais velhas esperanças. Abrandarei o seu olhar e porei no fundo de suas pupilas o brilho da juventude. E seu caro menino branquelo, este burrinho atado a mesma fadiga que o cavalo, a ele devolverei as belas cores do seu berço e serei para este novo atleta da vida o óleo que fortifica os músculos dos velhos combatentes.
" Cairei no fundo de seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. Nossa íntima reunião criará a poesia. Para nós dois faremos Deus e flutuaremos ao infinito, como pássaros, as borboletas, os filhos da virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."...
Eis o que canta o vinho em sua linguagem misteriosa. Maldito seja aquele cujo o coração egoísta e insensível ás dores de seus irmãos nunca escutou esta canção"...
Charles Baudelaire / Paraísos Artificiais
Assinar:
Comentários (Atom)




