domingo


"... Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê,
acho que o sentido é dormir"

...não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio...
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas não se afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos do destino, como eu, que não se afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpentes, moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando, o meu tempo que segue , pois eu não sigo... (Fernando Pessoa)


... A náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a náusea sou eu....
A náusea / Jean Paul Sartre

sábado


"...Parece-me ás vezes ouvir o vinho falar - ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam :..
" Homem, meu bem amado, quero levar até voçê, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e esperança. Não sou ingrato , sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade, porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais que as adegas melancólicas e insensíveis.É uma tumba alegre onde cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.
Ouve-se agitar-se em mim a ressoar os poderosos refrãos dos tempos passados, os cantos de amor e de glória? Sou a alma da pátria, sou metade galante, metade militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho torna prósperos os dias, o vinho torna felizes os domingos. Os cotovelos sobre a mesa da casa e as mangas arregaçadas, assim você me glorificará orgulhosamente e ficará verdadeiramente contente.
Iluminarei os olhos de sua velha mulher, a velha companheira de suas tristezas cotidianas e de suas mais velhas esperanças. Abrandarei o seu olhar e porei no fundo de suas pupilas o brilho da juventude. E seu caro menino branquelo, este burrinho atado a mesma fadiga que o cavalo, a ele devolverei as belas cores do seu berço e serei para este novo atleta da vida o óleo que fortifica os músculos dos velhos combatentes.
" Cairei no fundo de seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. Nossa íntima reunião criará a poesia. Para nós dois faremos Deus e flutuaremos ao infinito, como pássaros, as borboletas, os filhos da virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."...
Eis o que canta o vinho em sua linguagem misteriosa. Maldito seja aquele cujo o coração egoísta e insensível ás dores de seus irmãos nunca escutou esta canção"...
Charles Baudelaire / Paraísos Artificiais

"... e assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma sensação que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa, uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna, um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende...


"...era ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos úmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que macham lentamente...

Fernando Pessoa / Livro do Desassossego

...para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro...

...tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação para que não nasci ou o sonho para que ninguém nasceu. Resulta que detesto ambos, não escolho nenhum, mas hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa a outra...

...pedi tão pouco á vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhcer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
escrevo triste no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei...assisto-me com sono, olho sobre o papel meio escrito a vida vã sem beleza, o cigarro barato, ...a banalidade da vida...

Fernando Pessoa/Livro do Desassossego

segunda-feira


Nunca se Sabe

Não é que eu faça questão de ser feliz
Eu só queria que parassem
De morrer de fome a um palmo do meu nariz
Mesmo que pareçam bobagens
As viagens que eu faço
Eu traço meus rumos eu mesmo (a esmo)
E se nunca sei a quantas ando
Se ando sem direção
É porque nunca se sabe É porque nunca se sabe
Nem sempre faço o que é melhor pra mim
Mas nunca faço o que eu Não tô afim de fazer
Não viro vampiro, eu prefiro sangrar
Me obrigue a morrer
Mas não me peça pra matar, não...

domingo


2008: 120 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA.

A Alma Humana /Fernando Pessoa

A alma humana é um manicômio de caricaturas.
Se uma alma pudesse revelar-se com verdade
E nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas, definidas
Seria, como dizem, da verdade o poço.Mas um poço sinistro, cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser.
Ranho da subjetividade.
Eis a alma
Mephistópheles
Goethe
Eu sou Mephistópheles. Mephistópheles, é o diabo. E todos vocês são Faustos. Faustos, os que vendem a alma ao diabo.
Tudo é vaidade neste mundo vão, tudo é tristeza, é pop, é nada. Quem acredita em sonhos é porque já tem a alma morta. O mal da vida cabe entre nossos braços e abraços
Mas eu não sou o que vocês pensam. Eu não sou exatamente o que as Igrejas pensam. As Igrejas abominam-me. Deus me criou para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua.
A minha luz paira sobre tudo que é fútil: margens de rios, pântanos, sombras.
Quantas vezes vocês viram passar uma figura velada, rápida, figura que lhe darei toda felicidade. Figura que te beijaria indefinidamente. Era eu. Sou eu.
Eu sou aquele que sempre procuraste e nunca poderá achar...
Senhores, venham até mim, venham até mim, venham. Eu os deixarei em rodopios fascinantes, vivos nos castelos e nas trevas, e nas trevas vocês verão todo o esplendor.
De que adianta vocês viverem em casa como vocês vivem? De que adianta pagar as contas no fim do mês religiosamente, as contas de luz, gás, telefone, condomínio, IPTU?
Todos vocês são Faustos. Venham, eu os arrastarei por uma vida bem selvagem através de uma rasa e vã mediocridade, que é o que vocês merecem.As suas bem humanas insaciabilidade, terão lábios, manjares, bebidas.
É difícil encontrar quem não queira vender sua alma ao diabo...
Sobre o autor: Johann Wolfgang von Goethe (1749 - 1832), nasceu em Frankfurt. Grande poeta e pensador alemão. Sua vasta obra abrange peças dramáticas, romances, contos, poesias líricas, cartas e descrições de viagem

quinta-feira


"...o dia passara como normalmente passam os dias: eu havia desperdiçado,dissipado suavemente, com minha primitiva e arredia maneira de ser... não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas tão somente um desses dias como desde algum tempo costumam ser os normais de minha vida: moderadamente agradáveis, totalmente suportáveis, toleráveis, tépidos dias... dias sem dores particulares, sem singulares preocupações, sem aflições especiais, sem desesperos, dias em que até mesmo a pergunta, de que se não seria o momento de seguir o exemplo de Adalbert Stifter e degolar-se com a navalha de barbear, era meditada tranquilamente sem emoção, sem qualquer sentimento de angústia..."

O Lobo da Estepe / Hermann Hesse

terça-feira

Perfeita Simetria
Engenheiros do Hawaii

Toda vez que toca o telefone

Eu penso que é você
Toda noite de insônia
Eu penso em te escrever
Pra dizer Que o teu silêncio me agride
E não me agrada ser
Um calendário do ano passado
Prá dizer que teu crime me cansa
E não compensa entrar na dança
Depois que a música parou

A música parou (Parou!)

Toda vez que toca o telefone
Eu penso que é você
Toda noite de insônia
Eu penso em te escrever
Escrever uma carta definitiva
Que não dê alternativa Prá quem lê
Te chamar de carta fora do baralho
Descartar, embaralhar você
E fazer você voltar
[Ao tempo em que nadaNos dividia
Havia motivo pra tudo
E tudo era motivo pra mais
Era perfeita simetria
Éramos duas metades iguais
Ao tempo em que nada
Nos dividia
Havia motivo pra tudo
E tudo era motivo pra mais
Era perfeita simetria
Éramos duas metades iguais
O teu maior defeito
Talvez seja a perfeição
Tuas virtudes
Talvez não tenham solução
Então pegue o telefone Ou um avião
Deixe de ladoOs compromissos marcados
Perdoa o que puder ser perdoado
Esquece o que não tiver perdão
E vamos voltar aquele lugar vamos voltar...................................

domingo



Milord
Edith Piaf


Allez, venez, Milord!
Vous asseoir à ma table;
fait si froid, dehors,
Ici c'est confortable.
Laissez-vous faire, Milord
Et prenez bien vos aises,
Vos peines sur mon coeur
Et vos pieds sur une chaise
Je vous connais, Milord,
Vous n'm'avez jamais vue
Je ne suis qu'une fille du port,
Qu'une ombre de la rue...
Pourtant j'vous ai frôlé
Quand vous passiez hier,
Vous n'étiez pas peu fier,
Dame! Le ciel vous comblait:
Votre foulard de soie
Flottant sur vos épaules
,Vous aviez le beau rôle,
On aurait dit le roi...
Vous marchiez en vainqueur
Au bras d'une demoiselle
Mon Dieu!... Qu'elle était belle...
J'en ai froid dans le coeur....

sexta-feira

domingo


"O poder nada concede sem que lhe seja exigido.
Nunca concedeu nem concederá.”

Frederick Douglass, aboliciomnista Afro-Americano

"É preciso explicar por que o mundo de hoje,
que é HORRÍVEL,
é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico
e que a esperança sempre foi umas das forças dominantes
das revoluções e das insurreições
e eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro"

Jean Paul Sartre, 1963.

quinta-feira


...gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece.
Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida, que meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja a responsabilidade não posso me eximir.
Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja a feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismos...
Gosto de ser gente, inacabado, sei que sou condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir além dele ... minha presença no mundo não é a de quem nele se adapta mas a de quem nele se insere...
Gosto de ser gente porque mesmo sabendo que as condições materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam...sei que as coisas podem até piorar, mas sei também que é possível intervir para melhorá-las ...(Paulo Freire)


segunda-feira

...Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,...

domingo



Carlos Drummond de Andrade - Uma hora e mais outra


Há uma hora triste que tu não conheces.
Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança;
não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol
antecipando outro mais gelado pano;
e também não é a do nascer do sol
enquanto enfastiado assistes ao dia perserverar no câncer,
no pó, no costume,no mal dividido trabalho de muitos;
não a da comida hora mais grotesca
em que dente de ouro mastiga pedaços de besta caçada;
nem a da conversa com indiferentes ou com burros de óculos,
gelatina humana, vontades corruptas, palavras sem fogo,
lixo tão burguês, lesmas de blackout fugindo à verdade como de um incêndio;
não a do cinema hora vagabunda onde se compensa,
rosa em tecnicólor,a falta de amor,a falta de amor, A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácida após o desgaste do corpo entrançado em outro,
tristeza de ser exaurido e peito deserto;
nem a pobre hora da evacuação:um pouco de ti desce pelos canos,oh!
Adulterado,assim decomposto,tanto te repugna, recusas olhá-lo: É o pior de ti?
Torna-se a matéria nobre ou vil conforme se retém ou passa?
Pois hora mais triste ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena que desprevinido te colhe sozinho ou na rua ou no catre
em qualquer república; já não te revoltase nem te lamentas,
tampouco procuras solução benignade cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio no chão ou no espaço,roídos os livros, cortadas as pontes,
furados os olhos, a língua enrolada, os dedos sem tato, a mente sem ordem,
sem qualquer motivo de qualquer ação,
tu vives: apenas,sem saber por que,
como, para que, tu vives: cadáver, malogro,
tu vives, rotina, tu vives tu vives, mas triste duma tal tristeza tão sem água ou carme,
tão ausente, vago, que pegar quisera na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes que existe amanhã?
Então um sorriso nascera no fundo de tua miséria e te destinara a melhor sentido.
Exato, amanhã será outro dia. Para ele viajas.Vamos para ele.
Venceste o desgosto, calcaste o indivíduo, já teu passo avançaem terra diversa.
Teu passo, outros passos ao lado do teu.
O pisar de botas, outros nem calçados, mas todos pisando, pés no barro, pés n'água,
na folhagem. Pés que marcham muitos, alguns se desviam, mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,negros, rubros pés,tortos ou lanhados,fracos, retumbantes,
gravam no chão mole marcas para sempre:
pois a hora mais bela surge da mais triste.

quinta-feira




...As religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar....
Arthur Schopenhauer

"Pensamos demasiadamente e Sentimos muito pouco…

Necessitamos mais de humildade Que de máquinas.

Mais de bondade e ternura Que de inteligência.

Sem isso, A vida se tornará violenta eTudo se perderá." -

Charles Chaplin

domingo



Desistir não é nobre. E arduamente, não desistimos
(Caio Abreu)

A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.CAIO FERNANDO DE ABREU

SE A REALIDADE NOS ALIMENTA COM LIXO A MENTE PODE NOS ALIMENTAR COM FLORES... (caio f. abreu.)
"É crua a vida.
Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida.
Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços,
Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, l
avo as vigas dos ossos,
minha vida
Tua unha plúmbea,
meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos
A vida é crua.
faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica:
arroio, lágrima
Olho d’água, bebida.
A vida é líquida. "
HILDA HILST

Te esperarei com mafuás, novenas, cavalhadas. Depois, comerei a terra e direi coisas de uma ternura tão simples, que desfalecerás...(MANUEL BANDEIRA)
"E QUADO ESTIVESSE SÓ NA MINHA ESCURIDÃO ME ENRROLARIA NO TENRO PANO DE SOL ESTENDIDO NUMA DAS PAREDES DO QUARTO ENTREGANDO-ME DEPOIS PROTEGIDO NESSA MANTA ...AO VINHO E A MINHA SORTE..."RADUAN NASSAR
"ESSES INQUIETOS VENTOS ANDARILHOSPASSAM E DIZEM :
"VAMOS CAMINHAR.NÓS CONHECEMOS MISTERIOSOS TRILHOS,BOSQUES ANTIGOS ONDE É BOM SONHAR...

Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
(fernando pessoa)
Leia... Leia!O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia! Leia em casa, no ônibus, no metrô. Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos.

Paul Valéry foi um filósofo, escritor e poeta francês, da escola simbolista. Seus escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música. No final da década de 1880 publicou seus primeros versos, influenciados pela estética da literatura da época

....E o que podemos fazer!?Podemos escrever, cantar, gritar, pichar , panfletear , pintar, conversar, sabotar, incitar a reflexão!Podemos espalhar a dúvida, matar falsas verdades, abalar os ídolos , virar tudo do avesso!Podemos ser ateus, poetas, pensadores, inovadores, amadores, tentadores, sonhadores , invasores , plantadores , leitores e criadores...Colar poemas nos muros...Espalhar idéias no mundo virtual...Ressuscitar a poesia morta, o amor à sabedoria que se foi...Acreditar na possibilidade ...no humano olho do mundo.... p.vinícius
Não me indigno, porque a indignação é para os fortes;
não me resigno, porque a resignação é para os nobres;
não me calo, porque o silêncio é para os grandes.
E eu não sou forte, nem nobre, nem grande.
SOFRO E SONHO.
Queixo-me porque sou fraco , entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos ...(fernando pessoa)

enchantagem
de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo
esperanças, cheguei
tarde demais como
uma lágrima
de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito de ser verbo sem sujeito
pense um pouco
beba bastante
depois me conte ...
eu te invento por toda a eternidade
(p.leminski)

"morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma "(leminski)





..calo-me,espero,decifro
as coisas talvez melhorem
são tão fortes as coisas...

"balançando entre o real e o irreal...

"vós sois carne, eu sou vapor. um vapor que se dissolve quando o sol se rompe...sou branca e longa e fria e minha carne é um suspiro na madrugada da serra"...
"tenho saudade de mim mesmo, saudade sob aparência de remorso,de tanto que não fui, a sós, a esmo, e de minha alta ausência em meu redor. tenho horror e também tenho pena de mim mesmo E TENHO OUTROS MUITOS SENTIMENTOS VIOLENTOS... e meu amor é vário, e sendo vário é um só. (drummond)


que fazer no mundo, além de embebedar-se, quando chega o momento em que a realidade não está mais á altura do sonho?"Delacroix

"vontade de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso".(caio f. abreu)

Mapple



terça-feira


"É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge,
a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta,
a tudo o que fala, perguntai-lhes quue horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Charles Baudelaire