sábado

"...Parece-me ás vezes ouvir o vinho falar - ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam :..
" Homem, meu bem amado, quero levar até voçê, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e esperança. Não sou ingrato , sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade, porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais que as adegas melancólicas e insensíveis.É uma tumba alegre onde cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.
Ouve-se agitar-se em mim a ressoar os poderosos refrãos dos tempos passados, os cantos de amor e de glória? Sou a alma da pátria, sou metade galante, metade militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho torna prósperos os dias, o vinho torna felizes os domingos. Os cotovelos sobre a mesa da casa e as mangas arregaçadas, assim você me glorificará orgulhosamente e ficará verdadeiramente contente.
Iluminarei os olhos de sua velha mulher, a velha companheira de suas tristezas cotidianas e de suas mais velhas esperanças. Abrandarei o seu olhar e porei no fundo de suas pupilas o brilho da juventude. E seu caro menino branquelo, este burrinho atado a mesma fadiga que o cavalo, a ele devolverei as belas cores do seu berço e serei para este novo atleta da vida o óleo que fortifica os músculos dos velhos combatentes.
" Cairei no fundo de seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. Nossa íntima reunião criará a poesia. Para nós dois faremos Deus e flutuaremos ao infinito, como pássaros, as borboletas, os filhos da virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."...
Eis o que canta o vinho em sua linguagem misteriosa. Maldito seja aquele cujo o coração egoísta e insensível ás dores de seus irmãos nunca escutou esta canção"...
Charles Baudelaire / Paraísos Artificiais

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