domingo

Carlos Drummond de Andrade - Uma hora e mais outra


Há uma hora triste que tu não conheces.
Não é a da tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança;
não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol
antecipando outro mais gelado pano;
e também não é a do nascer do sol
enquanto enfastiado assistes ao dia perserverar no câncer,
no pó, no costume,no mal dividido trabalho de muitos;
não a da comida hora mais grotesca
em que dente de ouro mastiga pedaços de besta caçada;
nem a da conversa com indiferentes ou com burros de óculos,
gelatina humana, vontades corruptas, palavras sem fogo,
lixo tão burguês, lesmas de blackout fugindo à verdade como de um incêndio;
não a do cinema hora vagabunda onde se compensa,
rosa em tecnicólor,a falta de amor,a falta de amor, A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácida após o desgaste do corpo entrançado em outro,
tristeza de ser exaurido e peito deserto;
nem a pobre hora da evacuação:um pouco de ti desce pelos canos,oh!
Adulterado,assim decomposto,tanto te repugna, recusas olhá-lo: É o pior de ti?
Torna-se a matéria nobre ou vil conforme se retém ou passa?
Pois hora mais triste ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena que desprevinido te colhe sozinho ou na rua ou no catre
em qualquer república; já não te revoltase nem te lamentas,
tampouco procuras solução benignade cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio no chão ou no espaço,roídos os livros, cortadas as pontes,
furados os olhos, a língua enrolada, os dedos sem tato, a mente sem ordem,
sem qualquer motivo de qualquer ação,
tu vives: apenas,sem saber por que,
como, para que, tu vives: cadáver, malogro,
tu vives, rotina, tu vives tu vives, mas triste duma tal tristeza tão sem água ou carme,
tão ausente, vago, que pegar quisera na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes que existe amanhã?
Então um sorriso nascera no fundo de tua miséria e te destinara a melhor sentido.
Exato, amanhã será outro dia. Para ele viajas.Vamos para ele.
Venceste o desgosto, calcaste o indivíduo, já teu passo avançaem terra diversa.
Teu passo, outros passos ao lado do teu.
O pisar de botas, outros nem calçados, mas todos pisando, pés no barro, pés n'água,
na folhagem. Pés que marcham muitos, alguns se desviam, mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,negros, rubros pés,tortos ou lanhados,fracos, retumbantes,
gravam no chão mole marcas para sempre:
pois a hora mais bela surge da mais triste.

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